segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Uma das contribuições de Roman Jakobson aos estudos linguísticos: As Funções da Linguagem

     "linguista sum, linguistici a me nihil alienum puto"
"sou linguista, acho que tudo que é linguístico tem a ver comigo"
(Roman Jakobson)

      Sabe-se que o homem é um ser social, por isso ele precisa estar em constante comunicação com seu semelhante.
           No ato da comunicação, existem alguns elementos envolvidos. São eles:
  • emissor: aquela pessoa, ou grupo de pessoas, que emite uma mensagem;
  • receptor: aquela pessoa, ou grupo de pessoas, que recebe uma mensagem;
  • mensagem: é o conjunto de ideias (significativo), um texto;
  • código: é o conjunto organizado de signos linguísticos - as palavras;
  • canal: é o meio que veicula a mensagem e
  • referente: é a situação, o contexto e os objetos - que podem ser reais ou fictícios -  a que a mensagem se refere.
    O processo interativo entre indivíduos ocorre a partir da articulação desses elementos. A intenção do locutor se revela na mensagem, e essa intencionalidade organizará a mensagem de maneira que ela fique mais voltada para determinado elemento  do ato comunicativo. Os tipos de funções da linguagem serão estabelecidos a partir do enfoque predominante em relação aos elementos da comunicação.
A teoria Jakobsoniana é a de que, para cada um dos fatores/elementos, há uma função de linguagem correspondente. Vejamos quais são elas:

FUNÇÃO EMOTIVA OU EXPRESSIVA 


      Se a orientação for centrada no rementente/emissor ela é chamada de FUNÇÃO EMOTIVA.

          Exemplo:
          "Enquanto eu tiver perguntas e não houver respostas... continuarei a escrever."
(Clarice Lispector)


FUNÇÃO CONATIVA OU APELATIVA

Se a orientação for centrada no receptor/destinatário ela é chamada de FUNÇÃO CONATIVA.

           Exemplo:
           "Não te irrites, por mais que te fizerem...
             Estuda, a frio, o coração alheio.
             Farás, assim, do mal que eles te querem,
             Teu mais amável e sutil recreio..."
              (Mário Quintana)

FUNÇÃO REFERENCIAL OU DENOTATIVA


  Se a orientação for centrada no contexto, situação e objetos reais ou fictícios ela é chamada de FUNÇÃO REFERENCIAL.

           Exemplo:

    

BNDES aprova financiamento recorde de R$ 22,5 bilhões para Belo Monte

VENCESLAU BORLINA FILHO

    O BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) aprovou financiamento de R$ 22,5 bilhões para a Norte Energia S.A. para a construção da usina hidrelétrica de Belo Monte, no rio Xingu (PA).

     Parte do crédito será repassada pela Caixa Econômica Federal (R$ 7 bilhões) e pelo banco de investimentos BTG Pactual (R$ 2 bilhões). O restante será exclusivamente do BNDES, com recursos públicos.

   Caixa e BTG foram escolhidos pelo consórcio Norte Energia para ser agente financiador do empréstimo. Em caso de inadimplência, as duas instituições assumem o risco.


FUNÇÃO POÉTICA

A linguagem que tem essa função é centrada, predominantemente, na mensagem, revelando recursos imaginativos criados pelo emissor.
Não podemos confinar a poesia a essa função, pois existem outras funções que predominam nesses textos. Na poesia épica, por exemplo, o foco é aquilo de que se fala ou de quem se fala (referencial); na lírica, a primeira pessoa se sobressai, logo a função predominante é a emotiva.
A função poética é metafórica, conotativa, sugestiva e afetiva.

Exemplo:

Tudo quanto penso
(Fernando Pessoa)

Tudo quanto penso,
Tudo quanto sou
É um deserto imenso
Onde nem eu estou.

Extensão parada
Sem nada a estar ali,
Areia peneirada
Vou dar-lhe a ferroada
Da vida que vivi.

No exemplo citado, há predomínio de recursos estilísticos, a ênfase recai sobre a construção do texto, a seleção e a disposição das palavras.


FUNÇÃO METALINGUÍSTICA

A linguagem que tem essa função é centrada, predominantemente, no código: a linguagem é usada para falar dela própria. Um texto que comenta outro texto, os livros que tratam da gramática, o poema que fala do poema, os dicionários.

Exemplo: 
"Gastei uma hora pensando um verso
que a pena não quer escrever.
No entanto ele está cá dentro
Inquieto, vivo.
Ele está cá dentro
e não quer sair.
Mas a poesia deste momento
inunda minha vida inteira."

(Carlos Drummond de Andrade)



FUNÇÃO FÁTICA

A orientação é centrada no canal -  tem por objetivo prolongar ou não o contato, ou testar a eficiência do canal. É  a linguagem das expressões como alô, então, entende?, está me ouvindo?, etc.

Exemplo:

- Alô?
- Pois não, com quem deseja falar?
- Aqui é a Maria. Gostaria de falar com o José.
- Só um momento por gentileza.










domingo, 25 de novembro de 2012

Metal Contra as Nuvens





Não sou escravo de ninguém
Ninguém, senhor do meu domínio
Sei o que devo defender
E, por  valor eu tenho
E temo o que agora se desfaz.

Viajamos sete léguas
Por entre abismos e florestas
Por Deus nunca me vi tão só
É a própria fé o que destrói
Estes são dias desleais.

Eu sou metal, raio, relâmpago e trovão
Eu sou metal, eu sou o ouro em seu brasão
Eu sou metal, me sabe o sopro do dragão.

Reconheço meu pesar
Quando tudo é traição,
O que venho encontrar
É a virtude em outras mãos.

Minha terra é a terra que é minha
E sempre será
Minha terra tem a lua, tem estrelas
E sempre terá.

Quase acreditei na sua promessa
E o que vejo é fome e destruição
Perdi a minha sela e a minha espada
Perdi o meu castelo e minha princesa.

Quase acreditei, quase acreditei
E, por honra, se existir verdade
Existem os tolos e existe o ladrão
E há quem se alimente do que é roubo
Mas vou guardar o meu tesouro
Caso você esteja mentindo.

Olha o sopro do dragão...
É a verdade que o assombra
O descaso que condena,
A estupidez, o que destrói
Eu vejo tudo que se foi
E o que não existe mais

Tenho os sentidos já dormentes,
O corpo quer, a alma entende.
Esta é a terra-de-ninguém
Sei que devo resistir
Eu quero a espada em minhas mãos.

Eu sou metal, raio, relâmpago e trovão
Eu sou metal, eu sou o ouro em seu brasão
Eu sou metal, me sabe o sopro do dragão.

Não me entrego sem lutar
Tenho, ainda, coração
Não aprendi a me render
Que caia o inimigo então.
Tudo passa, tudo passará...
E nossa história não estará pelo avesso
Assim, sem final feliz.
Teremos coisas bonitas pra contar.

E até lá, vamos viver
Temos muito ainda por fazer
Não olhe pra trás
Apenas começamos.
O mundo começa agora
Apenas começamos.


(Legião Urbana)



Andrea Doria - Legião Urbana




Às vezes parecia 
Que de tanto acreditar
Em tudo o que achávamos 
Tão certo...

Teríamos o mundo inteiro
E até um pouco mais
Faríamos floresta do deserto
E diamantes de pedaços 
De vidro...

Mas percebo agora
Que o teu sorriso
Vem diferente
Quase parecendo te ferir...

Não queria te ver assim
Quero a tua força
Como era antes
O que tens é só teu
E de nada vale fugir
E não sentir mais nada...

Às vezes parecia
Que era só improvisar
E o mundo seria
Um livro aberto...

Até chegar o dia 
Em que tentamos ter demais
Vendendo fácil
O que não tinha preço...

Eu sei é tudo sem sentido
Quero ter alguém
Com quem conversar
Alguém que depois
Não use o que eu disse
Contra mim...
Nada mais vai me ferir
É que eu já me acostumei
Com a estrada errada
Que eu segui
E com a minha própria lei...

Tenho o que ficou
E tenho sorte até demais
Como sei que tens
Também.



sábado, 24 de novembro de 2012

SOS





Augusto de Campos

Pluvial / Fluvial




Augusto de Campos

Pêndulo





E. M. de Melo e Castro




Não

(Álvaro de Campos)
 
Não: devagar.
Devagar, porque não sei
Onde quero ir.
Há entre mim e os meus passos
Uma divergência instintiva.
Há entre quem sou e estou
Uma diferença de verbo
Que corresponde à realidade.

Devagar...
Sim, devagar...
Quero pensar no que quer dizer
Este devagar...
Talvez o mundo exterior tenha pressa demais.
Talvez a alma vulgar queira chegar mais cedo.
Talvez a impressão dos momentos seja muito próxima...
Talvez isso tudo...
Mas o que me preocupa é esta palavra devagar...
O que é que tem que ser devagar?
Se calhar é o universo...
A verdade manda Deus que se diga.
Mas ouviu alguém isso a Deus?